Minha história – Capítulo 3
Não existe árvore grande sem raiz – os galhos que me conduzem até o Japão.
Essa newsletter deu um tiquinho mais de trabalho do que eu esperava. Encontramos muitas informações relevantes, o que levou mais tempo para organizá-las. Te convido a embarcar no último voo dessa aventura e descobrir como o Japão entrou na minha vida.
Toshiko Murakami nasceu em Nagano, no Japão. Seu pai era sócio de uma fábrica de fósforos – um negócio de chamas modestas que também tinha uma filial na Manchúria, então território japonês, onde a família vivia. Quando a saúde do filho mais novo exigiu um clima mais ameno e o Brasil abria as portas à imigração japonesa, o pai tomou uma decisão que mudaria o destino de todos: empacotar a fábrica e atravessar o oceano. O maquinário enfrentou entraves com as autoridades e o plano original precisou se adaptar à realidade. A família se estabeleceu em Tomé-Açu, no Pará, onde havia incentivo para que os japoneses criassem raízes.
Katsumasa Takahashi nasceu em Ehime, no Japão. Vinha de uma família abastada que a vida desfez – e foi essa virada de fortuna que o trouxe ao Brasil. Em Belém, formou-se como guarda-livros, uma espécie de técnico contábil. Durante a Segunda Guerra Mundial, sua família foi enviada para Tomé-Açu, onde havia um “campo de concentração”. Os bens dos japoneses foram confiscados e, para sobreviver, voltaram-se à terra: plantaram hortaliças e venderam o excedente em Belém. Nem os Murakami nem os Takahashi tinham experiência em agricultura, mas tinham algo mais valioso – a capacidade de organizar, liderar e construir onde a vida pedia recomeço.
A proximidade entre as famílias também aproximou dois destinos: Toshiko e Katsumasa se casaram e tiveram seis filhos, entre eles José Takahashi. (Guarde esse nome – ele aparecerá novamente.)
No mesmo período, outras famílias japonesas também lançavam suas sementes no solo brasileiro.
Kunisuke Ikeda, sua esposa Toki e os três filhos — Shigeharu, Sameko e Yasuko — fincaram raízes em Pompéia, no interior de São Paulo.
Yassushi e Nobu Ajimura chegaram ao Brasil em 1929. Estabeleceram-se na zona rural de Franca, no interior paulista, onde cultivavam arroz e algodão. Depois de uma temporada em São Paulo, mudaram-se para Londrina, onde se tornaram comerciantes. Seus descendentes vivem na região até hoje.
Há um detalhe sobre Yassushi que merece ser contado. Aos 15 anos, ele se alistou no navio de guerra Mikassa como ajudante de serviços gerais. O navio participou da guerra russo-japonesa e, após a vitória japonesa, retornou ao porto de Yokosuka. Foi nessa chegada que Yassushi desceu do navio e voltou para Yamaguchi. No mesmo dia, horas depois, o Mikassa explodiu e afundou. Décadas mais tarde, em 1988, Yassushi foi reconhecido e homenageado como o último sobrevivente daquela embarcação — um homem que o acaso poupou, como se a história ainda precisasse dele.
Sumie Ajimura e Shigeharu Ikeda se encontraram, se casaram e tiveram oito filhos. A caçula chamava-se Setsuko.
É hora de reencontrar aquele nome guardado lá no começo: José Hajime Takahashi. Ele e Setsuko se casaram e tiveram três filhos: Marco Dyodi, Júlia Yuri e Clarice Suemy.
Dyodi é meu marido — e foi por meio dele que o Japão entrou na minha vida. Nossos filhos, Pedro e Sofia, carregam no sangue heranças japonesas, espanholas e italianas. Uma mistura inusitada, dessas que a história faz melhor do que qualquer planejamento.
Tivemos a sorte de levar meus sogros e as crianças a uma viagem ao Japão há dois anos. Escrevi sobre essa experiência inesquecível aqui. Quem disse que não dá para viajar ao mesmo tempo para o futuro e para o passado?
Depois dessa volta ao passado, encerro a série sobre a importância de conhecermos nossas raízes. Ao longo dessa história, compreendemos que somos fruto de culturas que se encontraram e de uniões que aconteceram. E que um dia seremos raízes para outros galhos – que também crescerão e florescerão.
Espero que tenham gostado dessa viagem que fizemos juntos ao longo desses três textos. E que, quem sabe, ela anime vocês a conhecerem a própria história – se ainda não o fizeram.
Até a próxima.
Um beijo,
Daniela Baez




