Minha história – Capítulo 1
Não existe árvore grande sem raiz – os galhos que me conduzem até a Espanha.
Manoel e Isabel nasceram nas Ilhas Canárias, um arquipélago espanhol situado a 150 km da costa da África. É composto por sete ilhas e tem duas capitais.
Isabel teve que lidar com a morte de seus pais ainda criança. Foi adotada por uma família de três irmãos. Ela ajudava na limpeza e organização da casa, além de cozinhar e realizar outras tarefas domésticas. Não frequentava a escola, mas tinha aula em casa, já que os três eram professores. Como nenhum dos irmãos se casou nem teve filhos, deixaram todos os seus bens para Isabel quando morreram.
As irmãs de Isabel foram igualmente adotadas, mas cada uma por uma família diferente. Apesar da tragédia, as famílias tomaram cuidado para que, mesmo vivendo em casas separadas, as irmãs continuassem tendo certa convivência.
Manoel veio de uma família estruturada e relativamente bem de vida. Eram donos de mercearias e alguns deles eram marceneiros.
Manoel e Isabel se casaram e tiveram seis filhos (um deles morreu logo após o nascimento): José, Manolo, Francisco, Maria e Ricardo.
Manoel era muito conversador, fanfarrão e de bem com a vida. Gostava de investir em novos negócios sem muita preocupação nem garantias. Porém, algumas investidas mais tarde, não havia sobrado nada. Ele perdeu todo o dinheiro que tinha, inclusive a herança de Isabel. Ela se virava com o que tinha e como podia. Usava o leite de cabra à sua disposição para fazer queijos e vender. Tentando soluções e em busca de recuperar um pouco do que haviam perdido, mudaram de ilha pelo menos duas vezes, mas sem sucesso.
Sem saber o que fazer, Manoel decidiu tentar a sorte um pouco mais longe: no Brasil. Embarcou sem absolutamente nada de concreto. Não falava português e não conhecia ninguém. Deixou para trás Isabel e os filhos. Voltaria para buscá-los assim que estivesse estabelecido no Brasil (o que ninguém sabia quanto tempo levaria). Porém, nada disso o abalou, nem conseguiu tirar o sorriso largo do rosto ao entrar naquele navio.
Durante a travessia do Atlântico, Manoel conheceu um casal espanhol, donos de uma fazenda de café em Parapuã, no interior de São Paulo. Papo vai, papo vem, os dois lhe fizeram uma proposta de trabalho: dariam uma casa e um pedaço de terra para que ele plantasse café. Manoel rapidamente aceitou e, de quebra, convidou outro espanhol que havia conhecido no navio para ir com ele.
Dez meses se passaram até que ele pudesse trazer Isabel e seus filhos para o Brasil. Ela e as crianças não sabiam direito o que encontrariam por aqui, já que Manoel enviou dinheiro para que viessem, sem que ele as buscasse pessoalmente.
Isabel nunca pensou que um dia sairia da Espanha, muito menos para atravessar o Atlântico, deixando para trás suas irmãs e a vida que conhecia.
Passaram onze dias a bordo de um navio que se desfazia em pedaços. A comida era escassa; o medo e o enjoo ao enfrentarem grandes tempestades eram intensos; o pouco espaço disponível era uma realidade desagradável. Mal sabiam que esse navio realizava sua última viagem de turismo (se é que se pode considerar isso turismo!), pois viraria um cargueiro.
Depois de uma rápida parada no porto do Rio de Janeiro, chegaram ao destino final: o porto de Santos. De lá, foram para Parapuã encontrar Manoel e sua nova vida.
Os dois filhos mais velhos, José e Manolo, logo se mudaram para São Paulo. Francisco ajudava o pai na plantação; Maria e Ricardo ajudavam na limpeza da casa da dona da fazenda, além de irem para a escola. Isabel fazia pão, costurava e se virava para sustentar os filhos, já que, na nova terra, não tinha facilidade em encontrar leite de cabra, como nas Ilhas Canárias, para continuar a fazer seus queijos.
Manoel e Isabel eram meus avós. Ricardo, o caçula, é meu pai. Ele chegou ao Brasil com dez anos de idade. Foi (re)alfabetizado por aqui e, entre os 5 irmãos, foi o único a cursar faculdade. Ele é formado em administração de empresas. Minha tia Mari (a chamamos assim e não de Maria, pois ela detesta!) fez curso técnico e trabalhou sempre em fábricas de indústrias farmacêuticas. Meu tio Manolo e o tio Paco (apelido de Francisco) são metalúrgicos aposentados e o tio Pepe (apelido de José) voltou para Parapuã e está lá até hoje.
Meus avós já faleceram. Entender a história de vida deles é conhecer a minha história. De onde eu vim. Meus pais se conheceram porque meu avô aprontou e deu muitas cabeçadas, o que culminou na mudança deles de país. A lembrança que tenho do meu avô é de um cara engraçado, que adorava fazer palhaçadas (às vezes chegava a irritar), carinhoso com os netos e sempre de bom humor. Já minha avó era mais distante, ria menos, era mais contida. Guardava sua aposentadoria em dinheiro numa gaveta do seu armário (Gato escaldado tem medo de água fria, não é mesmo?). Quando eu era pequena, não tinha dimensão do que ela havia passado, mas sempre a achei mais tristonha, fechada e distante. Era extremamente religiosa. Talvez isso seja o que a tenha mantido de pé diante de tantas adversidades.
No final do ano passado, tivemos a oportunidade de levar meu pai para a Espanha. Foi a primeira vez que ele pôs os pés lá desde que havia feito a difícil travessia para o Brasil. E foi emocionante estar com ele nesse momento. Apesar de não termos ido às Ilhas Canárias, ele ficou muito feliz em conhecer a “sua Espanha”. Fomos para Valência, Madrid, Toledo e Segóvia. E ter meus filhos vivendo esse momento com o avô foi muito significativo.
Entendi a importância de conhecermos a nossa história ao ouvir a Ana Sales, uma psicoterapeuta transpessoal, dizer: “Não existe árvore forte sem raiz”. E é a mais pura verdade. Não estaríamos aqui se não fossem nossos antepassados e toda a história deles. Não precisamos reproduzir o que viveram nem as escolhas que fizeram, mas agradecê-los, honrá-los e seguir adiante, fazendo a nossa história, sendo raiz de novas árvores que virão.
Esse é o primeiro texto de uma série de outros que virão sobre minhas descendências, do meu marido e dos meus filhos.
Até o próximo capítulo!
Um beijo,
Daniela
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Amei esse seu texto! Acho tão legal saber sobre nossas origens e vc sabe detalhes e pode realmente se relacionar com eles. Isso é de uma riqueza imensa ❤️
Escarafunchar o solo em busca das histórias das nossas raízes é um presente que damos para nós e para quem está mais adiante na linha familiar. Tenho a grande sorte de ter dos dois lados gente que topou essa empreitada e transformou em livros a história da minha família. Belíssimo edição, Dani. Que venham os próximos capítulos dessa série ❤️